
Eram duas pessoas dentro de uma mulher com alma de criança.
Essa mulher/criança acordou cedo naquele dia, levantou com a rapidez de uma faca cortando um rosto, dirigiu-se ao banheiro, olhou o reflexo no espelho e massageou os olhos com as mãos. " É, mais um dia, mais um dia...", foi o que pensou no primeiro instante, porém recordou o motivo dos olhos avermelhados e sentiu a barriga encostar no coração e vice-versa, era ela, o motivo e justificativa do dia nublado. Pensou e não sabia o porquê daquelas atitudes, sentou-se no vaso sanitário, colocou a cabeça entre as mãos por cima dos joelhos e como se não soubesse o que aconteceria, levantou, rumou para a profundidade superficial do choveiro e molhou os cabelos como gesto de afogamento auditivo. Era sim, uma mulher à resolver problemas.
O ônibus sem ninguém não lhe deixava mais triste, a vida sem ninguém lhe deixava triste, mas não importava. Nada mas importava além do que ela viria a fazer dali a poucos minutos. Chegou ao seu destino, a viu, correu para perto dela e a olhou demoradamente, pensou nos livros que já havia lido e nas confidências que já havia feito a essa pessoa. Ela a traiu.
Lhe subjugou, lhe subestimou no momento errado, no momento em que nada mais, nenhuma falsa amizade lhe preocuparia. A olhou, sentiu no seu brilho mais decadente; a raiva.
A olhou novamente e disse que nada tinha. Foi a última e única coisa que conseguiu dizer. Aliás, a única que merecia ser dita.
Enquanto ao dia nublado, ele reina e reinará até que venha o Sol.

